Há duas décadas na cena eletrônica, a nigeriana Shinedoe (seu nome verdadeiro é Chinedum, que significa "Deus Está Me Levando" em nigeriano) é uma força feminina na cena underground de música eletrônica atual. Radicada na Holanda, ela começou sua carreira tocando em clubes pequenos de Amsterdã, mas logo seu talento chamou a atenção e fez a moça fazer diversas turnês internacionais, além de lançar seu som em grandes gravadoras europeias. Ex-dançarina, ela também se destaca na arte de remixar --já fez, inclusive, trabalhos para nomes como a banda sueca The Knife. Hoje, no auge da maturidade, viaja ao redor do mundo destilando suas elegantes batidas de techno.

Batemos um papo com a moça, que se apresenta neste sábado na festa Mothership, no D-Edge, em São Paulo. 

Como entrou no mundo da música eletrônica? Eu comecei a produzir com 19/20 anos, mas já discotecava desde 1995. Nunca planejei me tornar uma DJ, mas fui tocada por muita música boa... O primeiro disco que comprei foi "The Nighttripper", do Phuture, maluco e surreal. Eu sabia que precisava comprar esse disco. Foi aí que começou minha vibe de colecionar álbuns e, consequentemente, toca-discos. Um amigo me deixou fazer um esquenta no Club Ja, em Amesterdã, e meu primeiro grande show como residente foi nas noites VIP Club no Paradiso Amsterdam. De lá eu toquei no festival Awakenings e em muitos outras festas e clubes na Europa. Minhas inspirações está em artistas como Juan Atkins, Resistance Underground, Theo Parrish, Fingers, Orlando Voorn, Aphrohead, Moodymann, Jeff Mills, Robert Hood, Derrick May, Joey Beltram, Plaid. Também fui influenciada pela música africana, pop, rock, hip-hop, jazz e drum'n bass... Eu adoro diferentes tipos de música, eu não tenho uma pessoa só ou somente um som que me influenciaram.

Como você consegue manter sua liberdade musical e qual significado de liberdade em si para você? Eu acho importante tocar a música que toca minha alma, se eu tiver o feeling, vou tocá-la... O mesmo com a produção, cada faixa tem um sentimento diferente. O que eu solto é uma vibração mais suave do que o que eu toco na pista de dança. Produzir e discotecar é seguir meu coração e ser totalmente criativo sem limitações humanas. Você não pode me colocar em uma caixa ou conceito --se o fizer, eu escorregarei antes que você perceba.

O fato de ser dançarina ajuda você a sentir a vibe da multidão em diferentes níveis e com uma sensibilidade diferente? Ao lado de meus estudos, eu fui dançarina de freestyle até completar 20 anos, mais ou menos. Dançar é uma grande parte da minha vida, eu acho que isso vem das minhas raízes nigerianas. Como fui educada com música, sinto a necessidade de me expressar através do movimento e sentir os sons ou o ritmo. Então, sim, eu acho que ajuda a encontrar uma direção durante a jornada de tocar.

Como sua cidade atual, Amsterdã, a influenciou? Amesterdã é uma cidade internacional e você ouve e se conecta com diferentes tipos de música indo a festas, ouvindo DJs, saindo em clubes como Mazzo, Roxy, além de festas underground. Também há música em lojas de discos como Groove Connection, Rythem Import, Midtown, Rushour, Boudisque.



O que podemos encontrar na sua coleção de discos e o que você ouve em casa, quando não está trabalhando? Artistas como Aphex Twin, Square Pusher, Goldie, Photex, Underground Resistance, Stevie Wonder, além de hip-hop, ambient etc. Em casa eu escuto jazz, pop, rock, tudo depende do meu humor. Eu aprecio todos os estilos, o que eu não curto muito é trance ou hardcore mais obscuro.

Ao longo de suas duas décadas de carreira, você colaborou com muitos labels e artistas. Qual deles foi o mais significativo e especial para você? Olhando para trás, foram realmente muitos selos. O que eu gosto é que cada label é único. "Dillema", meu primeiro lançamento em 100% Pure Records, de 2004, foi muito especial para mim, porque Dylan Hermelijn acreditou em minhas produções e me deu uma chance, fiquei muito grata por isso. Também fiquei muito honrada de ter feito remixes para The Knife em sua gravadora Rabid Records. Foi especial fazer uma colaboração com Jerome Sydenham recentemente para a Ibadan Records.

Como você vê o futuro da música eletrônica? É otimista?
Está animado do jeito que está e eu estou tentando ser otimista, embora veja as coisas mudando na música eletrônica. Espero que as pessoas por trás da cena mantenham o coração e a paixão abertos e não deixem a política e o dinheiro acabar com a vibe.

[Entrevista por Arjana Vrhovac Jonsson]