Do interior da Alemanha vem o DJ Ralf Schmidt, aka Aera, que se tornou bem conhecido na cena europeia em 2014 após lançar tracks em selos renomados de techno, como Maeve (do Mano Le Tough) e Innervisions (de Dixon). Morando atualmente em Berlim, é um representante da eletrônica emotiva e atmosférica que ainda tem grande espaço nas festas e clubs da capital alemã, porém seu repertório é vasto e não se limita somente aos beats de computador. Para se ter uma ideia, o cara conhece muito de samba e Bossa Nova. Antes de fazer suas primeiras apresentações no Brasil (ele toca nesta quinta-feira no clube D-Edge), o DJ conversou um pouco conosco sobre carreira, música brasileira e as expectativas de tocar por aqui. Confira:

Como foi o seu primeiro contato com a música eletrônica? Quando eu era pequeno, tinha um órgão elétrico em casa que eu aprendi a tocar sozinho e acabei conhecendo sons como samba, Bossa Nova e rock and roll. Mais tarde, meu irmão mais velho costumava me levar para visitar lojas de discos em nossa cidade natal e nas proximidades de Hamburgo. Foi quando me apaixonei por house e techno. Deve ter sido em torno de 1995. Eu tinha uma obsessão estranha com "smileys" e, quando eu vi o primeiro disco de acid house da minha vida, viciei. Na mesma caixa, havia a compilação seminal "Detroit - The House Of Techno"... Foi assim que tudo começou.

Como sua cidade natal influenciou sua sonoridade e como as cidades pelas quais passa fazem isso também? Tudo o que me rodeia me influencia --desde a minha cidade às pessoas que conheço, às coisas que vejo, leio, experimento... Então, é claro que o ambiente desempenha um papel importante. Algumas das minhas melhores músicas surgiram quando eu estava viajando muito ou vivendo no exterior. Um exemplo: eu passei um inverno nas Ilhas Canárias há algum tempo e compus muitas músicas. Foi um dos momentos mais produtivos da minha vida, pois eu estava tão relaxado e em sintonia comigo mesmo. Meu estúdio tinha vista para o mar, portanto, era realmente inspirador. Além disso, não tinha muito mais o que fazer por lá, o que ajudou na concentração. Meu primeiro lançamento pela Innervisions veio desse período e há ainda muito material da época para ser lançado.

Se você tivesse a oportunidade de mudar algo que fez no começo de sua carreira, o que seria? E o que você certamente faria de novo sem hesitar? Eu não gosto de morar no passado e pensar sobre o que poderia ter sido diferente. Cada erro é uma oportunidade de aprender algo. Eu não mudaria nada.

O que está tocando no seu player ultimamente? Acabei de receber o álbum Underspreche no Optimo Trax e minha cabeça quase explodiu. Geralmente ouço tudo que sai de boas gravadoras, como Le Disques De La Mort, Correspondant, Hivern Discs, Kann, Innervisions and Maeve. Além disso, amo o que Fango está fazendo no momento, I:cube e Gilb'r estão arrasando, assim como Red Axes e Moscoman. Tudo que Roman Flügel toca vira ouro e eu realmente acho que Mattheis (da Nous'klaer) deve ter uma chance na playlist de todo mundo. Eu passo muito tempo no Bandcamp, então, se você quiser saber o que eu estou comprando, encontre-me e me siga por lá.

Você falou no começo sobre samba e Bossa Nova. Conhece música brasileira? Além de samba, Bossa Nova e capoeira e assim por diante, eu me lembro que o funk carioca também ficou muito famoso há algum tempo. Depois houve o movimento "líquido" de tambores e baixos com o DJ Marky e companhia. O Brasil tem uma história musical super rica e tenho certeza de que só arranhei a superfície. Falando em música eletrônica, sigo as produções de Davis e toquei com o L_cio há algumas semanas em Berlim, é um cara muito bacana e talentoso. Tem também o selo carioca 40% Foda, que lança algumas músicas loucas. Eu realmente admiro o que eles fazem e não há nada no mundo que soe como eles.

Está ansioso para tocar no Brasil? É uma grande honra para mim tocar no D-Edge! É a minha primeira vez por aqui, então estou bem animado e tenho certeza de que vai ser ótimo.

Qual é a principal mensagem que a sua música carrega? Eu não preciso de uma mensagem específica ou motivo --é isso que eu amo na dance music! Ela fala diretamente com a sua alma e seu corpo. Não indica o que dizer, pensar, sentir ou fazer. Ela conecta as pessoas em um nível emocional e tem o poder de unir todos, independentemente de sexo, raça, dinheiro ou posicionamento político.

 

 

[Entrevista por Arjana Vrhovac Jonsson]