O paulistano Fabiano Zorzan, aka Propulse, é um dos pioneiros a fazer performances ao vivo, ou live PA, no Brasil. No meio dos 1990, era difícil encontrar gente que produzia e fazia as mixagens ao vivo até mesmo em São Paulo, a cidade com a maior cena eletrônica. "Hoje, com a internet e as redes sociais, todo mundo pode ser um DJ e um produtor", diz o veterano que, com quase 20 anos de carreira e 40 de idade, produz faixas de techno e house, é residente do clube D-Edge, em São Paulo, e conversou conosco para falar da evolução da música eletrônica no país nas últimas décadas. Confira:

Pode me contar um pouco da sua história? Quando começou a se interessar por música eletrônica e decidiu virar DJ e produtor? Comecei há muito tempo, em 1990, com 14 anos. Naquela época, minha irmã mais velha namorava com um DJ que me ensinou a tocar, o Marcelo Ribeiro, que está na cena eletrônica de São Paulo até hoje. Em 1996, eu já tinha o interesse em conhecer estúdios e saber como fazer a música que eu tocava. Com três amigos, montei um estúdio com o que tínhamos de equipamento e depois estudei no IAV (Instituto de Áudio e Vídeo) para aprender mais sobre engenharia de áudio. Fiz estágio em alguns estúdios pra aprender mais sobre os softwares, depois disso, não parei mais. Hoje sou DJ, produtor musical, técnico de áudio e designer acústico.

Como você vê a cena eletrônica do Brasil desde que começou a fazer o seu live? Muita coisa mudou, né? A cena no Brasil está crescendo e tomando cada vez mais força com um aumento significativo de pessoas interessadas em produzir e já produzindo, com artistas fazendo de sons mais underground até sonoridades mais pop. Existem produtores ótimos no Brasil, o que não temos por aqui ainda é a mesma quantidade de gente produzindo música que há na Europa, por exemplo. Eu comecei a produzir em 1996 e minha primeira apresentação live foi em 1997, no lendário clube Lov.e, em São Paulo, com o projeto INFLUX. Naquela época, existiam, se não me engano, cinco produtores de música eletrônica brasileiros em São Paulo. Agora, quase 20 anos depois, o número de artistas cresceu tanto que não faço mais ideia de quantas pessoas estão produzindo eletrônica. Nem todos são excelentes, mas há muita gente boa.

Quando eu comecei a tocar, a internet ainda engatinhava. Só era possível comprar disco de vinil ou CD --materiais para DJs eram na maioria em vinil mesmo. Então pra comprar uma música eu tinha que ir ao centro de São Paulo, andar até a Galeria 7 de Abril e ouvir o que tinha disponível na loja. Nem sempre havia algo legal, pois os “filés” ficavam sempre com os DJs mais famosos. Hoje em dia, com dois cliques você está com uma música que acabou de ser lançada na Rússia no seu pendrive e já pode tocá-la onde quiser, tudo isso em menos de cinco minutos. A tecnologia facilitou muito, mas ao mesmo tempo a concorrência também aumentou. Ficou barato e fácil se tornar um DJ. Com as mídias sociais, o mercado ficou mais fácil para artistas mais comerciais, já que imagem a quantidade de likes e seguidores valem bastante nesse contexto. Por outro lado, o mercado underground continua o mesmo. Você lança uma música em uma boa gravadora e, se ela for charteada e tocada por DJs e produtores famosos e ter uma boa venda nas lojas, você acaba tendo um resultado muito bom, mesmo não tendo um material de divulgação profissional.

Pode me falar um pouco de suas influências? Em que você se inspira quando vai compor? Minhas influências são antigas, como Orbital, 808State, Leftfield, Daft Punk, Underworld e Chemical Brothers. Hoje em dia eu me inspiro em sons que eu toco em meus DJs sets. Geralmente depois de uma noite tocando, no dia seguinte as ideias surgem com maior frequência.

Você é considerado um dos pioneiros a fazer um live eletrônico aqui no Brasil, certo? Por que você decidiu se dedicar ao live ao invés da discotecagem? Sim, minha primeira apresentação oficial como live pa foi em 1997, no clube Lov.e. Até então, eu só fazia DJ set. Como era algo bem diferente para a época, eu gostava do lance de levar e montar os equipamentos, além de ensaiar antes de cada apresentação. Isso fez com que eu ficasse mais interessado em fazer essa carreira crescer. Depois de anos e anos fazendo só live, eu voltei a discotecar e, nos últimos dois, fiz pouquíssimas apresentações ao vivo. Quem sabe daqui a pouco volto com um live novo! (risos)

Você é residente do D-Edge há 13 anos. Qual é o segredo de uma longa residência num clube tão importante? A história é longa, mas vou fazer um relato breve. A primeira vez que toquei no D-Edge foi em 2003. Em 2004, virei residente da noite que se chamava Upgrade. No fim do mesmo ano, a promoter que fazia a noite saiu do clube, e a festa acabou. A Anna Biazin, que trabalhava como hostess, me ligou avisando do fim da noite. A partir daí, nós nos reunimos e resolvemos fazer uma nova festa. Eu e um amigo, o Cesinha, que estava nessa reunião, tivemos algumas ideias e demos o nome de Moving para a noite. A Anna levou a proposta para o Renato Ratier, que topou. 12 anos se passaram, e eu continuo como residente e a Anna, como promoter. Durante todo esse tempo, sempre me dediquei e ajudei de todas as formas, a Anna trabalhou muito para fazer as noites, e o Renato sempre apoiou e apostou no nosso trabalho, mantendo o mesmo time.