Em 1999, o sonho da jovem Érica Alves era cantar como algumas das maiores divas pop norte-americanas, como Christina Aguilera, Mariah Carey e Whitney Houston. Algo bastante natural para uma adolescente de apenas 13 anos que morava nos Estados Unidos e fazia aulas de canto na escola. O mundo deu voltas e hoje, aos 29 anos, a garota nascida em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, mora em São Paulo onde está tendo um ótimo começo de carreira como cantora, principalmente por ser uma das vozes marcantes da música eletrônica atual.

Ela faz live performances em festas underground e canta no grupo The Drone Lovers ao lado dos produtores Davis e Pedro Zopelar. Além disso, o talento de Érica já foi reconhecido lá fora, quando foi selecionada para se apresentar no Red Bull Music Academy em 2015, que foi cancelado devido aos atentados terroristas de Paris em novembro.

Na entrevista a seguir, descobrimos como Érica foi fisgada pelos beats eletrônicos, como conseguiu se destacar numa cena underground tão disputada como a de Sampa e quais são seus projetos futuros, lembrando que o Drone Lovers acabou e lançar seu disco de estreia.

Como você descobriu a música eletrônica? Toco teclas desde criança, fiz aulas de piano clássico nos Estados Unidos, onde passei minha infância e parte da minha adolescência. Comecei a cantar com 13 anos, quando participei do coral e das aulas de teatro da escola --nessa época me apaixonei pela música pop e tinha vontade de cantar e compor como Christina Aguilera, Beyoncé, Mariah Carey, Whitney Houston e Aaliyah. Ao voltar para o Brasil, ainda com 13 anos, ganhei um violão e passei a compor cada vez mais canções. No entanto, pela maior proximidade com o gênero, acabei me aventurando mais pelo rock até conhecer Pedro Zopelar no Conservatório Brasileiro de Música no Rio de Janeiro, onde assistia aulas como ouvinte no curso de produção musical lá, em 2007. Na época, ele estava descobrindo a música eletrônica e tive o privilégio de entrar em contato com suas primeiras composições do gênero, que me impressionaram bastante pela complexidade e beleza de melodias e arranjos. No final de 2009, juntamos as cabeças quando comecei a produzir meus vocais em inglês, para os quais ele criava bases maravilhosas. Nessa época, ele já havia criado o The Drone Lovers com o Davis Genuino e estava de mudança para São Paulo -- em 2010, entrei formalmente no The Drone Lovers e também resolvi me mudar. Desde então vivo aqui e trabalho até hoje com eles, seja no The Drone Lovers, seja como artista do selo In Their Feelings.

Você já cantou outros estilos de música? Sofre preconceito ou já sofreu alguma vez por cantar eletrônica? Sim, em Niterói, trabalhei como compositora, vocalista e saxofonista no Motherfunk, uma banda de rock clássico, funk e soul por 4 anos e no Cafédameianoite, de faux-punk-jazz experimental como saxofonista. Gosto muito também de cantar João Gilberto no chuveiro! Acho que o preconceito mais visível que sofri por cantar música eletrônica é essa cobrança de ter ser diva e ter sex appeal e driblar isso com a vontade de me afirmar como produtora também. Por causa da insegurança gerada por essa tensão, demorei muito para me soltar como cantora desse estilo. O mercado é curioso porque embora você esteja na cena, você não é DJ, então ou precisa fazer parceria com algum DJ, ou, se não puder rachar o cachê (geralmente baixos no mercado underground de São Paulo), começar a produzir suas próprias bases e/ou aprender a discotecar. Outra coisa é que não me apresento em palcos, mas na maioria das vezes escondida atrás da cabine do DJ, o que dificulta um contato maior com o público.

Como é o processo de criação do seu novo live? Até agora, eu só fazia meu live conceitual, que funciona bem em ambientes mais intimistas, mas não tem muita abertura aqui no Brasil ainda. Eu estava sentindo muita falta de estar na pista de dança, trabalhando com meus amigos, e já estava com essa ideia de desenvolver esse set, que adapta minhas canções para house e techno. Umas duas semanas atrás recebi dois convites desafiadores no mesmo fim de semana: das festas Düsk e ODD, para mandar um live de pista. Fiquei feliz por ter pilotado esse live nas duas festas e ter sido tão bem recebida pelo público, que é bastante exigente!

E o lance da Red Bull Music Academy, como ficou? O RBMA Paris foi uma das experiências mais fortes da minha vida, não só por causa da residência, mas por ter coincidido com os ataques terroristas de 13 de novembro e ter sido cancelado após somente 3 dias de atividades. Minha turma foi realocada para esse ano, que será em Montreal. O DJ Pedro Zopelar botou pilha para eu me inscrever depois da experiência dele na edição de Tóquio em 2014. Já que ele foi como produtor e reconhecido pelo trabalho que desenvolvemos juntos com a MAWW Records, minha fita de 2013 “To Believe”, acreditamos que iriam me reconhecer e me recrutar também. Dito e feito.

É muito difícil hoje se destacar trabalhando com música eletrônica no Brasil? Acho que como em qualquer área artística no Brasil, é difícil se destacar na música eletrônica. Não posso falar por todo mundo que tenta a sorte na área porque reconheço que tive muitos privilégios na vida que facilitaram que eu chegasse onde estou hoje. No entanto, como sou uma mulher produtora, sou um pouco outsider e por isso há uma dificuldade maior em ter meu trabalho reconhecido do que meus comparsas masculinos, preciso ser no mínimo muito foda pra me destacar no rolê. Estou certa de que isso tem tudo a ver com essa sociedade preconceituosa e elitista que penaliza principalmente mulheres, LGBTs, pessoas não-brancas e pobres, podando suas chances de se desenvolver e se destacar, retirando seus direitos de acesso ao conhecimento e modos de produção musicais, principalmente no nosso país, onde simplesmente não há política pública massiva de acesso à educação musical. Acabamos desenvolvendo castas musicais com sobrenomes em vez de democratizar o acesso a toda a população. Como não faço parte dessa aristocracia musical, e por ser uma mulher não-branca e não-rica, somente pude entrar em contato com a educação musical devido ao acesso que tive através da escola pública em outro país. Por causa dessa consciência, e por ter me destacado na área, me sinto não só obrigada a ser defensora da arte como práxis de transformação social, mas sinto cada vez mais que meu processo de criação é o exato produto das contradições e tensionamentos gerados pela aliança da prática artística ao ativismo político, o que no meu ver potencializa ainda mais o poder de representação que o meu fazer tem com o público.

Me conta como é seu esforço e como você vê sua carreira daqui há uns 15, 20 anos? Em 15, 20 anos, mantendo o ritmo do crescimento do ativismo feminista internacional na música eletrônica, vejo uma cena de música eletrônica mais plural, com 50% de mulheres em todos os line-ups sem que isso seja estranho, utópico ou artificial para as pessoas que ainda acreditam que vivemos numa meritocracia. Espero encontrar os movimentos LGBT e negro ao longo dessa caminhada compartilhando dessa disputa e ofereço meu total apoio a todos! Espero da cena que se abram inúmeros centros de formação gratuitos ou de baixo custo em música e que o Estado brasileiro resgate o ensino público do abismo e ofereça uma política pública de educação artística completa. Espero ver e ajudar fazer tudo isso acontecer, enquanto eu rodo o mundo e o país inteiro com minhas músicas e ideias, espalhando as boas vibes e apontando caminhos.

E, quanto ao futuro mais imediato, tem disco ou EP vindo? Dois lançamentos quentíssimos acabaram de sair e estão para sair: o álbum de estreia do The Drone Lovers, “End of Civilization”, pelo selo Skol Music foi lançado agora no fim de fevereiro. E meu segundo disco solo, “BAPHYWAVE”, que sairá em vinil e digital pelo In Their Feelings ainda sem previsão, mas será neste ano.

Ouça abaixo o disco de estreia do The Drone Lovers, "End of Civilization":