O alemão Stefan Goldmann é dos artistas eletrônicos mais instigantes atualmente. Filho de músicos, desde pequeno ele esteve imerso no mundo da música clássica e descobriu a eletrônica por pura curiosidade. E é essa curiosidade a força que move o seu sólido trabalho, que não se restringe apenas a apresentações em clubes: ele também é um assíduo produtor, dono do label Macro e escreve sobre a cena (tem uma coluna no flyer do mítico clube berlinense Berghain, por exemplo). 

Sua grande marca é a fuga do lugar-comum e a visão analítica com que lança suas tracks e conduz sua carreira: apesar de ter como base o techno, seu som beira o experimental e não se restringe apenas à pista de dança. "Eu não lanço uma música apenas por lançar. Tudo que eu faço precisa ter uma razão de existir", diz. Talvez por apostar num caminho diferente de tantos DJs superstars, Goldmann não tenha nenhum grande hit --o que não diminui em nada a sua importância numa cena tão disputada e efervescente.

Goldmann se apresenta pela primeira vez no Brasil neste sábado (19/12), em São Paulo, na festa Mothership, do D-Edge. Antes do show, ele falou conosco sobre sua história, a indústria da música eletrônica e seu último disco, "Industry", lançado em 2014 e feito apenas com três sintetizadores baratinhos comprados no Ebay. Confira:

Quando você descobriu a música eletrônica e decidiu mesmo virar um DJ e produtor? Ainda criança, eu tocava baixo numa banda e sempre quis fazer um som mais eletrônico, algo na linha do que Elektro Guzzi faz hoje em dia. Além disso, sempre fui um colecionador de LPs e, uma vez, precisaram de um DJ para tocar numa festa da escola que tivesse discos. Foi aí que tudo começou. Sempre fui muito curioso sobre todos os aspectos que envolvem a música eletrônica: produção, discotecagem, direção de selos, tecnologia e clubes. Nunca quis que a música se tornasse apenas um “trabalho qualquer” para mim: fazer coisas tão diferentes como produzir, discotecar e escrever me permite tirar o que há de melhor em cada um desses processos.

Além de DJ, você também é produtor e escreve sobre música eletrônica. Como todos esses trabalhos distintos influenciam a sua música? Eu talvez tenha um approach mais análico no que faço. Tento não lançar tracks aleatórias. Existem milhares de novas músicas sendo lançadas toda semana, então eu tento produzir coisas que tenham uma verdadeira razão para existir. Como DJ, não sou muito influenciado por nada além da comunicação entre música e público na pista.

Jornalistas adoram encaixar o trabalho de artistas em definições, normalmente para o público entender mais facilmente sobre o que falamos. Muita gente rotula seu trabalho como “tech-house futurista”, “techno experimental”, “micro house conceitual” etc. Como lida com esses rótulos? Você mesmo consegue definir a música que faz? Tento não me repetir. Quando eu sigo uma ideia e vou fazer uma gravação a partir dela, o trabalho seguinte será algo totalmente diferente. Eu preciso desse pensamento para manter a música atraente para mim. Não importa o quanto você ama techno –você ficará entediado se produzir um monte de tracks parecidas. Sendo assim, é bem difícil colocar uma definição no que eu faço. Porém, tudo deriva mesmo do techno –inclusive meus momentos mais experimentais. A base é sempre essa.

O seu último disco, “Industry”, foi feito de forma rápida usando equipamentos bem simples, isso é verdade? Você pode contar como foi o processo de criação do álbum e se, de fato, ele é uma forma de discurtir a produção de música eletrônica atual? Foi um projeto bem engraçado. Eu comprei os três sintetizadores mais baratos que achei no Ebay e decidi não usar nada além dos sons pré-gravados deles para criar o disco. Isso me deu liberdade para fazer coisas até meio atiquadras que eu não costumo fazer. Tem muita gente que se utiliza de equipamentos muitos caros e modernos para fazer música eletrônica. Eles fingem que a música feita dessa maneira é melhor somente porque a tecnologia é mais cara ou houve mais esforço para produzi-la. Com “Industry”, eu quis mostrar que, com apenas alguns sons pré-gravados, muita coisa pode ser simulada e feita. Muitas pessoas acham que eu usei programas avançados para criar meu disco, mas não: ele foi gravado em apenas cinco dias.

Pode contar um pouco sobre a sua longa relação com o clube berlinense Berghain. Nos últimos 10 anos o local ganhou fama mundial e se popularizou. Você enxerga muitas mudanças por lá nesse tempo todo? Eu tenho uma relação bem engraçada com o Berghain, porque eu faço mutias coisas para o clube, mas não sou um DJ residente de lá –toco somente uma ou duas vezes por ano. Tudo começou em 2005, quando Zip, do selo Perlon, me convidou para tocar no Panorama Bar. Eles curtiram os meus sets e começaram a me chamar para tocar mais vezes e a nossa relação foi se estreitanto –eles também me chamaram para escrever uma coluna no flyer da casa e também participar da autoria do livro sobre o clube. Não acho que muita coisa mudou desde 2005. Há apenas algumas mudanças de estilo naturais –lá se ouve menos minimal e mais neotrance, além de ter menos noites comandadas por selos. Como a fama do lugar cresceu bastante, muita gente diferente também começou a frequentar a casa. Mas, no geral, a vibé é a mesma de dez anos atrás, o que é incrível.

O que você acha da recente “democratização” da música eletrônica, com artistas de EDM no topo das paradas fazendo músicas bem populares para as massas? Como você vê a indústria da e-music hoje? Democratização é uma mentira usada para vender software, serviços de internet e computadores. Nada foi democratizado, uma vez que é mais difícil do que nunca chamar atenção para uma track em particular ou mesmo para um artista. Paradoxalmente, quanto mais comercial a música é, torna-se mais difícil vendê-la. No fim, alguém já vai estar fazendo isso, então, quanto mais artistas tentarem vender música genericamente, menos eles estarão vendendo individualmente como músicos. Poucos conquistam grande sucesso com EDM. Podemos contar talvez uns 30 nomes que enchem arenas, e a outra parte é formada por gente que toca na beira da praia em troca de alguns drinques. O público e a indústria valorizam apenas uma coisa: artistas individuais de alto nível. É muito difícil para novos nomes imaginar-se deixando de imitar seus ídolos e fazendo um som autoral. Mas isso é a única coisa que eventualmente funciona a longo prazo.

Quais artistas você está ouvindo agora? Quem você acha que está se destacando na cena eletrônica atualmente?  Há alguns artistas com quem eu trabalhei –e só fiz isso porque realmente gosto dos seus trabalhos --como KiNK, Elektro Guzzi e L'estasi Dell'oro. Outra pessoa que está fazendo um bom trabalho é Nina Kraviz, que é um gênio dos dias atuais, desde a música que ela toca ao papel que ela faz como DJ. Estou curtindo artistas que de techno nos últimos tempos, como DVS1, Etapp Kyle, Rodhad, Stanislav Tolkachev, Zenker Brothers... Fora do techno, descobri recentemente uma banda incrível chamada Hiatus Kaiyote.